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Independência da Bahia: a madrugada de 2 de julho de 1823 em Salvador

Por Redação Brasil Documentado · 2 de julho de 1823 · Leitura de 11 minutos

Um sino de bronze pequeno de mesa, sozinho numa mesa de madeira escura e gasta, sob a luz quente de abajur que entra pela esquerda, com sombra funda caindo pra direita, fundo breu de couro e o dourado como única cor viva

Na madrugada de 2 de julho de 1823, o comboio português deixou a Baía de Todos os Santos. Eram navios de guerra e de transporte carregados de tropa, funcionários e famílias que saíam de Salvador.

A cidade estava cercada por terra havia meses e com a barra fechada por mar havia semanas. O abastecimento tinha secado, e a rendição virou embarque.

Ao amanhecer, o exército sitiante entrou na cidade. A guerra que começara em fevereiro do ano anterior terminava ali, dez meses depois da declaração feita em São Paulo e num teatro completamente diferente.

O cerco por terra: o Recôncavo fecha as estradas

A adesão ao governo do Rio começou fora da capital. Em 25 de junho de 1822, a vila de Cachoeira, no Recôncavo, se declarou pelo príncipe regente e virou base do movimento na província.

Santo Amaro, Maragogipe, São Francisco do Conde e outras vilas do entorno seguiram nas semanas seguintes. O Recôncavo é a região que abastece Salvador de farinha, carne e lenha, e a adesão das vilas transformou geografia em arma.

O comando das tropas portuguesas na cidade estava com Inácio Luís Madeira de Melo, que assumira as armas da província à força em fevereiro de 1822, no confronto que abriu o conflito na capital.

Do lado sitiante, o governo do Rio contratou um oficial francês, Pierre Labatut, para organizar o exército. Em maio de 1823, oficiais brasileiros o depuseram e o comando passou a José Joaquim de Lima e Silva, poucas semanas antes do desfecho.

O cerco foi de posição e de bloqueio, com poucos combates grandes. O mais registrado é a batalha de Pirajá, em novembro de 1822, quando a tentativa portuguesa de romper as linhas por terra parou e a cidade ficou trancada dentro dos próprios muros.

Fevereiro de 1822: o confronto que abriu o conflito

A guerra na Bahia começa meses antes da declaração feita em São Paulo, e começa dentro da própria capital.

Em fevereiro de 1822, o comando das armas da província foi disputado entre o oficial nomeado pelas Cortes de Lisboa, Inácio Luís Madeira de Melo, e o que ocupava o posto. O impasse virou combate de rua em Salvador.

O confronto se espalhou por conventos, quartéis e casas do centro. No Convento da Lapa, a abadessa Joana Angélica foi morta no episódio, e a morte aparece na documentação do período.

Madeira de Melo ficou com o comando e com a cidade. Parte da população saiu de Salvador nas semanas seguintes e atravessou a baía em direção ao Recôncavo, onde a resistência se organizou.

A ordem dos fatos é a parte que costuma se perder no resumo. Quando o príncipe regente parou à beira do Ipiranga, em setembro, a Bahia já estava em guerra havia mais de seis meses.

A batalha de Pirajá, em 8 de novembro de 1822

O combate mais registrado do cerco aconteceu em 8 de novembro de 1822, na altura de Pirajá, onde a estrada entrava para a cidade.

As forças portuguesas tentaram romper as linhas por terra e alcançar o Recôncavo. A tentativa foi contida, e a partir dali a tropa da cidade não voltou a operar longe dos muros.

O comando brasileiro no campo estava com José de Barros Falcão de Lacerda, e o efeito prático da vitória foi trancar Salvador no próprio perímetro, com a estrada fechada e o abastecimento dependendo do mar.

A tradição baiana atribui o desfecho a um toque de corneta dado fora de hora, que teria sido lido pela tropa adversária como ordem de ataque geral. O episódio é contado desde o século 19 e não tem documento produzido no dia que o confirme.

O que a documentação sustenta é o resultado. Depois de 8 de novembro, o cerco por terra ficou estável, e a decisão passou a depender do bloqueio naval que só chegaria em 1823.

A esquadra fecha a barra

O bloqueio terrestre sozinho não resolvia, porque Salvador podia ser abastecida por mar. A resposta veio em março de 1823, quando o governo do Rio entregou o comando da esquadra a Thomas Cochrane, oficial britânico contratado para o serviço.

A esquadra saiu do Rio no começo de abril e chegou à altura da Bahia em maio. O primeiro encontro com os navios portugueses, ainda no começo do mês, terminou sem decisão: nenhuma das duas esquadras foi desmontada, e a batalha aberta não se repetiu.

Cochrane trocou o combate frontal pelo bloqueio e por incursões noturnas na entrada da baía. Navio de mantimento que se aproximasse era tomado ou espantado.

Com a estrada fechada por terra e a barra fechada por mar, a situação da cidade virou aritmética de armazém. A conta do abastecimento é o que decide a data.

A madrugada do dia 2: o comboio sai

A decisão de embarcar foi tomada pelo comando português na cidade. Na madrugada de 2 de julho, o comboio começou a se mover para fora da baía, com os navios de guerra à frente e os transportes atrás.

Foram junto a tropa, funcionários da administração, comerciantes portugueses e famílias inteiras. Uma parte da população da cidade saiu naquela madrugada.

O número de embarcações varia conforme o relato, e a faixa que os documentos do período sugerem é ampla. O que está firme é o formato: dezenas de barcos saindo em conjunto, de uma vez, protegidos pelos navios armados.

A esquadra brasileira seguiu atrás. Nos dias seguintes, Cochrane capturou embarcações do comboio ao longo da costa, e a perseguição se estendeu para o norte muito depois de a cidade já estar entregue.

A entrada na cidade e o que veio nas horas seguintes

Ao amanhecer do dia 2, as tropas do exército sitiante entraram por terra e ocuparam a cidade sem combate de rua. A população recebeu a entrada na via pública, e a data é registrada pelos jornais do período como festa e como alívio.

Os primeiros atos do governo instalado foram práticos, e todos sobre abastecimento e ordem: liberar o trânsito de farinha do Recôncavo, retomar a alfândega, organizar a guarda da cidade e cuidar dos feridos dos dois lados.

O desfecho administrativo veio em seguida. A província passou a responder ao governo do Rio, e a última grande praça em armas fora do controle do império se fechou. A guerra na Bahia acabou naquela manhã.

Quem a documentação registra e quem ela não fecha

Maria Quitéria de Jesus é o caso mais bem documentado do cerco. Ela se apresentou à tropa vestida de homem, serviu na campanha e teve o feito reconhecido em ato oficial depois da guerra, com condecoração assinada.

Sóror Joana Angélica morreu no Convento da Lapa em fevereiro de 1822, no episódio que abriu o conflito dentro da capital, e a morte aparece na documentação do período.

Maria Felipa de Oliveira, de Itaparica, chegou até aqui principalmente por tradição oral e por registro tardio. A documentação de época sobre ela é escassa, e escrever que a documentação não fecha vale mais que repetir número que ninguém consegue apontar de onde saiu.

Os efetivos de tropa e as baixas dos dois lados também variam muito entre os relatos, e não existe lista fechada de nenhum dos dois.

A perseguição que continuou pelo Atlântico

A entrada na cidade fechou a guerra em Salvador, e a esquadra seguiu o comboio pelo mar por semanas, muito depois de a praça estar entregue.

Cochrane perseguiu os navios em direção ao norte, capturando embarcações ao longo da costa. Parte do comboio conseguiu seguir para Portugal, e parte foi tomada no caminho.

A campanha naval não parou na Bahia. Em julho de 1823, a esquadra alcançou São Luís, e o Maranhão passou a responder ao governo do Rio de Janeiro. No mês seguinte foi a vez do Grão-Pará, em operação conduzida por um oficial destacado da mesma força.

O efeito é de mapa. As três províncias que ainda respondiam a Lisboa mudaram de comando em cerca de sessenta dias, e a mudança foi feita com navio à vista do porto.

O que começou como cerco de uma cidade terminou, portanto, como operação de costa, e o desfecho do 2 de julho é o degrau que abre os outros dois.

Por que o 2 de julho pesa mais na Bahia

Na Bahia, a separação não chegou por notícia vinda de fora. Ela foi disputada em campo por dez meses, com gente do Recôncavo dentro da conta, e terminou numa data com hora, lugar e desfecho.

O 2 de julho é feriado estadual, e a festa tem percurso próprio. O cortejo sai da Lapinha e desce até o Campo Grande levando os carros do Caboclo e da Cabocla, as duas figuras que representam a vitória, e o mesmo trajeto se repete todo ano.

Os periódicos que noticiaram a saída do comboio e a entrada do exército estão na Hemeroteca Digital Brasileira. A documentação do governo que assumiu a província a partir dali está no Arquivo Nacional. As imagens do cortejo ao longo do século XX estão na Brasiliana Fotográfica, e mostram a festa mudando de roupa sem mudar de rua.

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O trajeto da Lapinha ao Campo Grande atravessa a mesma cidade alta que passou dez meses sitiada em 1823. Todo 2 de julho ela fecha para o cortejo passar.

Perguntas frequentes

O que aconteceu em 2 de julho de 1823?

O comboio português deixou a Baía de Todos os Santos na madrugada, levando tropa, funcionários, comerciantes e famílias que saíam de Salvador. Ao amanhecer, o exército sitiante entrou na cidade sem combate de rua, e a guerra que corria desde fevereiro de 1822 terminou ali.

Por que a Bahia comemora a independência em 2 de julho?

Porque na Bahia a separação não chegou por notícia vinda de fora. Ela foi disputada em campo por dez meses, com as vilas do Recôncavo dentro da conta, e terminou numa data com hora, lugar e desfecho. O 2 de julho é feriado estadual, com cortejo que sai da Lapinha e desce até o Campo Grande.

Quando começou a guerra da independência na Bahia?

Em fevereiro de 1822, meses antes da declaração feita em São Paulo, quando o comando das armas da província foi disputado à força em Salvador e o impasse virou combate de rua. A adesão do Recôncavo começou em 25 de junho de 1822, com a vila de Cachoeira se declarando pelo príncipe regente.

O que foi a batalha de Pirajá?

O combate de 8 de novembro de 1822, quando a tentativa portuguesa de romper as linhas do cerco por terra foi contida na altura de Pirajá. Depois dele, a tropa da cidade não voltou a operar longe dos muros, e a decisão passou a depender do bloqueio naval que chegaria em 1823.

Quem foi Maria Quitéria?

A mulher que se apresentou à tropa vestida de homem, serviu na campanha do Recôncavo e teve o feito reconhecido em ato oficial depois da guerra, com condecoração assinada. É o caso mais bem documentado do cerco, e a documentação sobre ela é de época, não de tradição posterior.

Qual foi o papel de Cochrane na Bahia?

Ele assumiu o comando da esquadra brasileira em março de 1823, trocou o combate frontal pelo bloqueio da entrada da baía e por incursões noturnas, e fechou o abastecimento por mar. Depois da saída do comboio, perseguiu os navios pela costa e a campanha naval seguiu para o Maranhão e o Grão-Pará nos dois meses seguintes.

O que a documentação do cerco não fecha?

O número de embarcações do comboio, os efetivos de tropa e as baixas dos dois lados, que variam muito entre os relatos e não têm lista fechada. A documentação de época sobre Maria Felipa de Oliveira também é escassa, e o que chegou até aqui vem principalmente de tradição oral e de registro tardio.

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