O episódio · Episódio
Dia da Independência do Brasil: a tarde de 7 de setembro de 1822, em ordem de hora
Por Redação Brasil Documentado · 7 de setembro de 1822 · Leitura de 11 minutos

Neste artigo
- O maço de papéis que subiu a serra de Santos
- A parada na colina, e o que o grupo pôs no papel
- A entrada em São Paulo, à noite
- O que o quadro de 1888 acrescentou
- O que as Cortes tinham mandado, decreto por decreto
- Quem estava na estrada naquele dia
- As províncias que souberam depois, e as que reagiram com guerra
- Como a data virou o marco oficial
- Onde o dia 7 de setembro está guardado
- Perguntas frequentes
Na tarde de 7 de setembro de 1822, a comitiva do príncipe regente parou à beira do riacho do Ipiranga, nos arredores da cidade de São Paulo. O grupo voltava de Santos e subia de volta para a cidade.
Dois correios alcançaram a comitiva na estrada com um maço de papéis. A correspondência tinha saído do Rio de Janeiro por mar, desembarcado em Santos e vencido a serra a cavalo atrás do príncipe.
A parada durou minutos. O dia terminou dentro de São Paulo, já de noite, e é ali que o episódio fecha.
O que segue é a cena em ordem de hora, com a separação entre o que está documentado e o que foi acrescentado depois, e o acervo público onde o registro está guardado.
O maço de papéis que subiu a serra de Santos
O príncipe percorria a província de São Paulo desde o fim de agosto. Tinha descido a serra até Santos e voltava para a cidade de São Paulo na manhã do dia 7.
Os dois correios que o alcançaram, Paulo Bregaro e Antônio Cordeiro, vinham do Rio de Janeiro. Eles carregavam a correspondência do governo e os despachos recém-chegados de Lisboa.
De um lado do maço estava a decisão tomada no Rio em 2 de setembro, com a princesa Leopoldina presidindo a reunião do Conselho de Estado e o ministério de José Bonifácio de Andrada e Silva escrevendo em seguida.
Do outro lado estavam as resoluções das Cortes portuguesas, que anulavam atos do governo do Rio de Janeiro e mandavam o príncipe regressar a Lisboa.
A relação exata das peças entregues na estrada é reconstruída a partir de relatos escritos depois, e muda de um autor para outro. Nenhuma lista assinada no dia 7 sobreviveu.
A parada na colina, e o que o grupo pôs no papel
Pedro leu os papéis parado, com a comitiva ao redor. Os relatos do grupo registram que ele mandou tirar dos chapéus o laço azul e branco que marcava a obediência às Cortes.
Estavam ali a Guarda de Honra formada em São Paulo para acompanhá-lo, o padre Belchior Pinheiro de Oliveira e os oficiais da escolta. O padre deixou o relato mais citado da cena.
Ele escreveu o relato décadas depois do dia, a pedido de um historiador. É dali que sai a maior parte das falas atribuídas à parada, e o próprio texto se apresenta como memória, não como registro imediato.
Nenhuma ata anotou o que foi dito à beira do riacho. Não havia secretário na estrada, e a comitiva seguiu viagem antes que alguém escrevesse qualquer coisa.
A hora da parada tem o mesmo problema. A maior parte dos textos situa a cena no fim da tarde, e nenhum documento produzido naquele dia fecha o horário.
A entrada em São Paulo, à noite
A comitiva retomou a subida e entrou em São Paulo com a cidade já escura. O príncipe se recolheu, trocou de roupa e saiu de novo.
Naquela mesma noite ele foi à Casa da Ópera, o teatro da cidade, e a plateia o recebeu de pé. A notícia da separação circulou primeiro ali dentro, entre algumas centenas de pessoas.
O grupo desceu de volta para o Rio de Janeiro nos dias seguintes. A aclamação como imperador veio em 12 de outubro de 1822, e a coroação em 1º de dezembro do mesmo ano, as duas na capital.
Entre a estrada de São Paulo e a coroação no Rio correram menos de três meses. O 7 de setembro é a data da decisão, e as outras duas são as datas da formalização.
O que o quadro de 1888 acrescentou
A imagem que quase todo mundo tem da cena não vem de 1822. Ela vem de uma tela pintada em Florença sessenta e seis anos depois, por encomenda, por Pedro Américo.
O quadro compõe uma parada militar: cavalos altos, uniformes de gala, terreno limpo, formação alinhada atrás do centro da cena. É pintura de composição, feita para ser vista de longe numa parede alta.
A estrada entre Santos e São Paulo era de serra e de lama. A montaria de serviço no percurso era a besta muar, e os relatos da comitiva descrevem o grupo montado em bestas.
A frase que ficou colada ao episódio tem o mesmo problema do horário. Ela aparece nos relatos escritos muito depois, e nenhum papel do dia 7 a registra.
O nome grito do Ipiranga também é posterior. Ele se firmou quando a data virou efeméride oficial, e passou a nomear a cena inteira.
O que as Cortes tinham mandado, decreto por decreto
A ruptura não começou na estrada. Ela vinha correndo em papel desde o ano anterior, entre Lisboa e o Rio de Janeiro, com prazo de navio no meio.
As Cortes Gerais reunidas em Lisboa a partir de 1821 legislavam sobre o Brasil a distância. Em outubro daquele ano aprovaram a volta do príncipe regente a Portugal e o fim dos tribunais superiores instalados no Rio desde 1808.
Os mesmos decretos mandavam que os governos das províncias brasileiras se reportassem direto a Lisboa. Na prática, retiravam do Rio de Janeiro a condição de sede administrativa que a cidade tinha desde a chegada da corte.
A resposta veio em série, e cada peça tem data. Em 9 de janeiro de 1822 o regente declarou que ficava, no episódio registrado como o Fico. Em 16 de janeiro José Bonifácio de Andrada e Silva assumiu o ministério.
Em 3 de junho, um decreto convocou uma assembleia para escrever a constituição do Brasil. Em 1º de agosto, outro passou a tratar como inimiga a tropa portuguesa que desembarcasse sem ordem do governo do Rio, e em 6 de agosto um manifesto explicou a posição da corte do Rio às nações amigas.
Quando o maço chegou à estrada de Santos, faltava pouco a declarar. O que a tarde do dia 7 fez foi fechar por palavra o que os decretos vinham fechando por escrito desde janeiro.
Quem estava na estrada naquele dia
O príncipe tinha deixado o Rio de Janeiro em 14 de agosto de 1822, com destino a São Paulo. A viagem tinha motivo político: a província vinha de uma crise de governo em junho, e a presença do regente servia para acomodar os grupos em disputa.
Ele chegou à cidade de São Paulo no fim de agosto, desceu a serra até Santos nos primeiros dias de setembro e voltava quando os correios o alcançaram.
A escolta era a Guarda de Honra, corpo formado em São Paulo poucas semanas antes para acompanhá-lo na província. Com ela iam oficiais, criados e o pessoal de serviço da viagem, num grupo de algumas dezenas de pessoas.
Entre os nomes que os relatos citam estão o padre Belchior Pinheiro de Oliveira, capelão e parente de José Bonifácio, e Francisco Gomes da Silva, ajudante de ordens conhecido pelo apelido de Chalaça.
Os mesmos relatos registram que o príncipe passava mal do intestino na viagem e parou mais de uma vez no percurso. O detalhe aparece em memória escrita depois, como quase tudo que se conhece daquela tarde.
Os dois correios que subiram a serra atrás dele tinham saído do Rio por mar. A correspondência levava dias entre uma cidade e outra, e a demora explica por que a decisão tomada no Rio em 2 de setembro só alcançou o destinatário no dia 7.
As províncias que souberam depois, e as que reagiram com guerra
A notícia da separação levou semanas para alcançar o norte e o nordeste. Não havia telégrafo no país, e o transporte era de navio à vela ou de tropa por terra.
Em algumas províncias a adesão foi de câmara municipal reunida e ata assinada, sem confronto. Em outras, a guarnição portuguesa estava instalada e a decisão passou por combate.
Na Bahia o conflito já corria desde fevereiro de 1822, antes da declaração, e só terminou em julho de 1823. No Piauí, tropas em marcha se enfrentaram em março de 1823 na região do rio Jenipapo.
O Maranhão e o Grão-Pará ficaram sob comando português até 1823, e a adesão dos dois foi conduzida com esquadra à vista, meses depois da tarde de São Paulo.
O tamanho do episódio muda quando o mapa entra na leitura. O 7 de setembro é a data da decisão tomada por quem governava no Rio, e o território só respondeu inteiro ao mesmo governo quase um ano depois.
Como a data virou o marco oficial
A escolha do 7 de setembro como data nacional é posterior ao episódio. Outras duas datas de 1822 aparecem com peso equivalente na imprensa da época: a aclamação de 12 de outubro e a coroação de 1º de dezembro.
O centenário de 1922 firmou a preferência. As comemorações daquele ano, com exposição internacional no Rio de Janeiro e monumento inaugurado em São Paulo, trataram o 7 de setembro como a data de fundação do país.
A lista de feriados nacionais em vigor hoje vem de uma lei de 1949, que fixou as datas civis e religiosas de alcance nacional e manteve o 7 de setembro entre elas.
O desfile militar que ocupa a data é prática do século 20. Ele não tem relação de forma com a cena de 1822, que teve algumas dezenas de pessoas paradas num caminho de tropa e nenhuma formatura.
Onde o dia 7 de setembro está guardado
A Hemeroteca Digital Brasileira reúne os periódicos brasileiros desde o começo do século 19, e é ali que se lê como a separação foi impressa nas semanas seguintes, jornal por jornal.
O Arquivo Nacional guarda a documentação produzida pelo governo do período, que é onde ficam os despachos, as portarias e a correspondência oficial daqueles meses.
A Brasiliana Fotográfica reúne imagens de acervo a partir da segunda metade do século 19, o que alcança o lugar e os monumentos, e não a cena de 1822.
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A subida de serra que a comitiva venceu a cavalo e a besta hoje se faz de rodovia, entre Santos e São Paulo, em pouco mais de uma hora.
Perguntas frequentes
O que aconteceu no dia 7 de setembro de 1822?
A comitiva do príncipe regente, voltando de Santos para São Paulo, parou à beira do riacho do Ipiranga depois de receber um maço de papéis trazido por dois correios vindos do Rio de Janeiro. Ali foi declarada a separação de Portugal. O dia terminou dentro da cidade de São Paulo, à noite, com o príncipe recebido de pé na Casa da Ópera.
Dom Pedro estava a cavalo naquele dia?
A estrada entre Santos e São Paulo era de serra e de lama, e a montaria de serviço no percurso era a besta muar. Os relatos da comitiva descrevem o grupo montado em bestas. O cavalo alto e o uniforme de gala vêm da tela pintada por Pedro Américo em 1888, sessenta e seis anos depois do episódio.
A frase Independência ou Morte foi mesmo dita na colina?
Nenhum papel produzido em 7 de setembro de 1822 registra o que foi dito à beira do riacho. Não havia secretário na estrada. As falas atribuídas à cena aparecem em relatos escritos décadas depois, e o mais citado deles, do padre Belchior Pinheiro de Oliveira, se apresenta como memória.
O que os correios levaram para a estrada?
De um lado, a decisão tomada no Rio em 2 de setembro, com a princesa Leopoldina presidindo a reunião do Conselho de Estado e o ministério de José Bonifácio escrevendo em seguida. Do outro, as resoluções das Cortes portuguesas, que anulavam atos do governo do Rio e mandavam o príncipe regressar a Lisboa. A relação exata das peças entregues muda de um autor para outro.
Por que 7 de setembro é feriado nacional?
Porque a data foi escolhida depois como marco da separação, entre outras candidatas do mesmo ano. O centenário de 1922 firmou a preferência, e a lista de feriados nacionais em vigor hoje, fixada em lei de 1949, mantém o 7 de setembro entre as datas civis de alcance nacional.
Quando o Brasil passou a ser reconhecido como país independente?
O reconhecimento por Portugal veio em tratado assinado no Rio de Janeiro em 29 de agosto de 1825, quase três anos depois da declaração. Os Estados Unidos já haviam reconhecido o novo país em 1824, e o reconhecimento europeu correu depois do acerto com a corte portuguesa.
Quem estava com o príncipe quando os papéis chegaram?
A Guarda de Honra formada em São Paulo, oficiais da escolta, o pessoal de serviço da viagem e o padre Belchior Pinheiro de Oliveira, que deixou o relato mais citado da cena. Nenhuma lista assinada no dia 7 sobreviveu, e a composição do grupo é reconstruída a partir de textos posteriores.
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