O episódio · Episódio
Governo Vargas: a madrugada de 24 de agosto de 1954 no Palácio do Catete
Por Redação Brasil Documentado · 24 de agosto de 1954 · Leitura de 11 minutos

Neste artigo
- O que levou a reunião àquela madrugada
- O mandato que estava em curso naquela madrugada
- O inquérito do Galeão, de 5 a 23 de agosto
- A reunião no Catete, pelas horas registradas
- Linha do tempo de 5 a 24 de agosto de 1954
- O documento deixado sobre a mesa
- As horas seguintes: o rádio, as ruas e a posse do vice
- O que a documentação não fecha
- As semanas seguintes, e o que ficou correndo depois
- Onde os papéis daquele dia estão
- Perguntas frequentes
Na madrugada de 24 de agosto de 1954, o Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, estava com as luzes acesas e com ministros dentro. A reunião varou a noite.
O assunto era a permanência do presidente no cargo. Getúlio Vargas ocupava a presidência desde janeiro de 1951, eleito no ano anterior pelo voto.
Ao amanhecer, a reunião já tinha uma saída acertada. Poucas horas depois, um disparo no quarto presidencial encerrou o governo de outro jeito, e o dia virou o mais documentado da década no Brasil.
O que levou a reunião àquela madrugada
O ponto de partida tem data e endereço. Na madrugada de 5 de agosto de 1954, na rua Tonelero, em Copacabana, houve um atentado a tiros contra o jornalista Carlos Lacerda, que voltava para casa.
Lacerda foi atingido no pé. O major-aviador Rubens Vaz, oficial da Aeronáutica que o acompanhava, foi morto no local.
A morte de um oficial em serviço de acompanhamento levou a apuração para dentro da força. Oficiais da Aeronáutica montaram um inquérito próprio, conduzido na base aérea do Galeão, que passou a investigar quem havia contratado os disparos.
Ao longo de agosto, a apuração alcançou pessoas ligadas à guarda pessoal do presidente. O resultado do inquérito e os manifestos assinados por oficiais das forças armadas chegaram à mesa do governo, e a pauta da noite de 23 para 24 passou a ser o afastamento do presidente.
O mandato que estava em curso naquela madrugada
O governo em questão tinha começado em 31 de janeiro de 1951, depois da eleição direta de 3 de outubro de 1950. Era o segundo período de Vargas na Presidência, e o primeiro com mandato saído de urna.
A pauta econômica do período está em lei publicada. Em outubro de 1953 foi sancionada a lei que criou a Petrobras, com monopólio estatal da pesquisa e da extração de petróleo no país, depois de anos de discussão no Congresso.
Em fevereiro de 1954, o ministro do Trabalho João Goulart deixou o cargo. A saída veio depois de um documento assinado por oficiais do Exército, entregue ao ministro da Guerra, que criticava a política salarial em preparação.
Em 1º de maio de 1954 o governo anunciou o novo salário mínimo, com reajuste que dobrou o valor anterior. A medida foi anunciada em comício e passou a ser um dos pontos da disputa política daquele ano.
O quadro no Congresso era de oposição organizada, com a União Democrática Nacional à frente e a imprensa carioca dividida em campos declarados. A pressão de agosto cai sobre um governo que já vinha discutido semana a semana.
O inquérito do Galeão, de 5 a 23 de agosto
A apuração do atentado da rua Tonelero correu fora da polícia civil, dentro de uma base aérea, e ganhou nome próprio na imprensa do período.
Os oficiais da Aeronáutica montaram o inquérito no Galeão porque um oficial da força tinha sido morto em serviço de acompanhamento. A condução ficou com a própria arma, e os jornais passaram a publicar cada avanço no dia seguinte.
Em poucos dias a apuração chegou ao autor material dos disparos, Climério Euribes de Almeida, ligado à guarda pessoal do presidente. A prisão dele, no meio do mês, mudou o tamanho do caso.
O passo seguinte alcançou Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal do Palácio do Catete, que foi detido e interrogado. A partir dali a apuração passou a tratar da relação entre a guarda do palácio e o atentado.
Em 22 e 23 de agosto vieram os documentos assinados. Um manifesto de generais e outro de oficiais da Aeronáutica pediram o afastamento do presidente, e os textos circularam antes da reunião ministerial da noite de 23.
A reunião no Catete, pelas horas registradas
A reunião ministerial começou na noite de 23 de agosto e atravessou a madrugada. Estavam na sala ministros civis e militares, e a conversa girou em torno de uma única pergunta prática.
A saída discutida foi a licença. O presidente se afastaria do cargo por tempo determinado e o vice-presidente assumiria, o que resolvia a exigência dos oficiais sem interromper o mandato por outro caminho.
Perto do fim da madrugada, a licença foi dada como acertada pelos presentes. O presidente deixou a sala e subiu para os aposentos, e a reunião se desfez.
Por volta das oito e meia da manhã, um disparo foi ouvido no quarto. Getúlio Vargas foi encontrado morto, atingido no peito por arma de fogo. Médicos, ministros e familiares chegaram ao quarto em minutos.
Linha do tempo de 5 a 24 de agosto de 1954
- 5 de agosto de 1954Na madrugada, na rua Tonelero, em Copacabana, o jornalista Carlos Lacerda é atingido no pé em atentado a tiros, e o major-aviador Rubens Vaz, que o acompanhava, é morto no local.
- Primeira quinzena de agostoOficiais da Aeronáutica montam inquérito próprio na base aérea do Galeão, e a apuração chega ao autor material dos disparos, preso no meio do mês.
- Segunda quinzena de agostoA apuração alcança Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal do Palácio do Catete, que é detido e interrogado.
- 22 e 23 de agosto de 1954Manifestos assinados por generais e por oficiais da Aeronáutica pedem o afastamento do presidente e circulam antes da reunião ministerial da noite.
- Noite de 23 para 24 de agostoA reunião no Catete atravessa a madrugada, e perto do amanhecer a licença do presidente é dada como acertada pelos presentes.
- 24 de agosto de 1954, por volta das oito e meiaUm disparo é ouvido no quarto presidencial, e Getúlio Vargas é encontrado morto. O texto datilografado encontrado ali chega ao rádio no mesmo dia e aos jornais no dia seguinte.
Vinte dias separam o tiro da rua Tonelero do fim do governo, e cada degrau da série tem papel de inquérito, manifesto assinado ou edição de jornal por trás.
O documento deixado sobre a mesa
No quarto foi encontrado um texto datilografado, assinado e endereçado ao povo brasileiro. Ele saiu do quarto naquela mesma manhã e foi entregue à imprensa.
O texto foi lido em cadeia de rádio ainda no dia 24 e publicado na íntegra pelos jornais do dia 25, em todas as capitais. Ficou conhecido como carta-testamento.
A frase final é a mais reproduzida do documento:
Saio da vida para entrar na História.
O que está fechado sobre o documento é o percurso: o papel foi encontrado no quarto, chegou ao rádio em horas e chegou impresso ao país no dia seguinte. Quem quiser conferir o texto encontra a reprodução nos jornais do dia 25.
O que segue em discussão é a redação. Historiadores debatem quem escreveu materialmente o texto, e há registro de mais de um documento atribuído ao presidente naquela manhã. A discussão está publicada e é acessível, e o que o documento tem de verificável continua sendo o mesmo: data, assinatura, destinatário e percurso até a impressão.
As horas seguintes: o rádio, as ruas e a posse do vice
A notícia saiu pelo rádio na manhã do dia 24 e correu muito antes de qualquer jornal. Em poucas horas, multidões se juntaram nas ruas em torno do Catete.
Houve depredação de sedes de jornais e de escritórios de empresas estrangeiras no Rio de Janeiro, em Porto Alegre e em São Paulo, e a polícia foi mobilizada nas três cidades ao longo do dia.
O vice-presidente João Café Filho tomou posse ainda no dia 24, e o governo seguiu com o mandato em curso.
O corpo foi velado no Palácio do Catete, com fila na rua ao longo do dia e da noite. No dia seguinte foi levado de avião para São Borja, no Rio Grande do Sul, e enterrado lá.
O que a documentação não fecha
A hora exata de cada passo da madrugada varia conforme o relato. Quem estava na sala publicou memórias depois, e os horários de cada fala não batem entre uma versão e outra.
A autoria material do texto datilografado é objeto de discussão entre pesquisadores, com nomes apontados e nenhum consenso fechado até aqui.
A apuração sobre o atentado de 5 de agosto continuou depois daquele dia, com desdobramentos judiciais ao longo dos anos seguintes, e o processo é peça separada do episódio da madrugada.
Boa parte dos relatos foi escrita no calor da semana, por gente diretamente envolvida, e diverge no detalhe. A regra que vale aqui é simples: onde as fontes não convergem, a divergência entra no texto em vez de ser resolvida por escolha do autor.
As semanas seguintes, e o que ficou correndo depois
O governo seguiu com o mandato em curso, sob João Café Filho, e a eleição presidencial marcada para outubro de 1955 passou a organizar a disputa política do ano seguinte.
O processo criminal sobre o atentado da rua Tonelero correu na justiça comum e alcançou os envolvidos apontados pelo inquérito conduzido no Galeão. Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal do palácio, foi julgado e condenado em 1956.
A apuração e o julgamento estão registrados nos autos do processo e na cobertura diária dos jornais das duas fases, o que permite acompanhar o caso inteiro pelo papel, sem depender de memória escrita anos depois.
A eleição de 3 de outubro de 1955 foi vencida por Juscelino Kubitschek, com João Goulart eleito vice na mesma votação. A posse dos dois, em 31 de janeiro de 1956, foi antecedida por uma crise institucional em novembro de 1955, resolvida dentro do Congresso e dos quartéis, com substituição no comando do Executivo até a data marcada.
Onde os papéis daquele dia estão
Os jornais de 24 e 25 de agosto de 1954, de todas as capitais, estão na Hemeroteca Digital Brasileira. São a fonte mais direta para as horas, para o texto reproduzido e para o que cada praça publicou naquele momento.
A documentação da presidência e dos órgãos federais do período está no Arquivo Nacional. O arquivo pessoal do presidente e o Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro estão no CPDOC da Fundação Getulio Vargas, que é onde se acha a ficha de cargo e as datas de quem estava na sala. As imagens do palácio e da cidade no período estão na Brasiliana Fotográfica.
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O Palácio do Catete deixou de ser sede do governo em 1960, com a transferência da capital para Brasília, e desde então abriga o Museu da República. O quarto onde o episódio terminou está preservado e aberto à visitação pública.
Perguntas frequentes
O que aconteceu em 24 de agosto de 1954?
Uma reunião ministerial no Palácio do Catete atravessou a noite discutindo a permanência do presidente no cargo e terminou de madrugada com uma licença dada como acertada. Por volta das oito e meia da manhã, um disparo foi ouvido no quarto presidencial, e Getúlio Vargas foi encontrado morto. O vice João Café Filho tomou posse ainda no mesmo dia.
O que foi o atentado da rua Tonelero?
Um ataque a tiros ocorrido na madrugada de 5 de agosto de 1954, em Copacabana, contra o jornalista Carlos Lacerda, que voltava para casa. Lacerda foi atingido no pé, e o major-aviador Rubens Vaz, oficial da Aeronáutica que o acompanhava, foi morto no local. A apuração conduzida pela Aeronáutica alcançou pessoas ligadas à guarda pessoal do presidente.
O que é a carta-testamento?
O texto datilografado, assinado e endereçado ao povo brasileiro encontrado no quarto naquela manhã. Ele foi lido em cadeia de rádio ainda no dia 24 e publicado na íntegra pelos jornais do dia 25, em todas as capitais. A frase final é a mais reproduzida do documento.
Quem escreveu a carta-testamento?
A autoria material segue em discussão entre pesquisadores, com nomes apontados e nenhum consenso fechado, e há registro de mais de um documento atribuído ao presidente naquela manhã. O que é verificável continua sendo o percurso: papel encontrado no quarto, lido no rádio em horas, impresso no país no dia seguinte.
Quem assumiu o governo depois?
João Café Filho, vice-presidente eleito na mesma chapa, empossado ainda em 24 de agosto de 1954. O mandato seguiu em curso, e a eleição presidencial seguinte aconteceu em outubro de 1955.
O que aconteceu nas ruas naquele dia?
A notícia saiu pelo rádio na manhã do dia 24 e correu antes de qualquer jornal. Multidões se juntaram em torno do Catete, e houve depredação de sedes de jornais e de escritórios de empresas estrangeiras no Rio de Janeiro, em Porto Alegre e em São Paulo, com a polícia mobilizada nas três cidades.
Onde Getúlio Vargas está enterrado?
Em São Borja, no Rio Grande do Sul. O corpo foi velado no Palácio do Catete, com fila na rua ao longo do dia e da noite, e levado de avião no dia seguinte para a cidade onde ele nasceu.
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