O episódio · Episódio
Era Vargas: o 3 de outubro de 1930 que começou em três estados na mesma tarde
Por Redação Brasil Documentado · 3 de outubro de 1930 · Leitura de 10 minutos

Neste artigo
- O que estava marcado para aquela tarde
- A eleição de março e a chapa que perdeu
- A coluna que subiu pelo Paraná e parou em Itararé
- 24 de outubro: a junta assume no Rio de Janeiro
- 3 de novembro: a posse no Palácio do Catete
- A fotografia do obelisco, e o que ela registra
- Os primeiros meses do Governo Provisório, em decretos
- Linha do tempo dos trinta e um dias
- As datas de corte do período
- Perguntas frequentes
No fim da tarde de 3 de outubro de 1930, tropa e civis armados tomaram o quartel-general em Porto Alegre. Os relatos registram o começo da ação por volta das cinco e meia, e a hora exata varia de um testemunho para outro.
Na mesma tarde, o movimento começou em Belo Horizonte e na cidade da Paraíba, hoje João Pessoa. Três estados saíram ao mesmo tempo, com ordem combinada e horário marcado.
O que se abriu ali levou trinta e um dias para chegar ao fim. A posse aconteceu em 3 de novembro, no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro.
Esta peça conta esses trinta e um dias em ordem. O período que veio depois entra só no fecho, com as datas de corte, porque cada trecho dele tem episódio próprio.
O que estava marcado para aquela tarde
A eleição presidencial de 1º de março de 1930 tinha dado a vitória a Júlio Prestes, candidato apoiado pelo governo. A chapa derrotada, da Aliança Liberal, reunia Getúlio Vargas, então presidente do Rio Grande do Sul, e João Pessoa, presidente da Paraíba.
Em 26 de julho de 1930, João Pessoa foi morto a tiros numa confeitaria do Recife. O autor dos disparos, João Duarte Dantas, tinha com ele uma disputa que envolvia correspondência particular apreendida e publicada.
A morte acelerou a articulação militar que já corria nos quartéis do Sul e do Nordeste. A data escolhida para a ação simultânea foi 3 de outubro, com o sinal marcado para o fim da tarde.
Em Porto Alegre, o quartel-general foi tomado em ação rápida, com Osvaldo Aranha ferido no ataque. Góis Monteiro assumiu o comando das forças em operação no Sul, e Juarez Távora comandou o movimento no Nordeste.
A eleição de março e a chapa que perdeu
A disputa de 1930 nasce de uma escolha feita no ano anterior, dentro do próprio grupo que governava. O presidente Washington Luís, paulista, apoiou a candidatura de Júlio Prestes, também paulista, em vez de sustentar o revezamento com Minas Gerais que vinha organizando as sucessões anteriores.
Minas respondeu se juntando ao Rio Grande do Sul e à Paraíba na Aliança Liberal, lançada no fim de 1929. A chapa reuniu Getúlio Vargas, presidente do Rio Grande do Sul, e João Pessoa, presidente da Paraíba.
O programa da aliança pedia sigilo do voto, justiça eleitoral independente, legislação de trabalho e anistia aos militares punidos nos levantes da década anterior.
O pano de fundo econômico é de outubro de 1929. A quebra da bolsa de Nova York derrubou o preço do café, principal produto de exportação do país, e a política de compra de estoques pelo governo perdeu financiamento externo.
A eleição de 1º de março de 1930 deu a vitória a Júlio Prestes. A apuração e o reconhecimento dos eleitos passavam pela Câmara, e a contestação da chapa derrotada não prosperou por essa via.
A coluna que subiu pelo Paraná e parou em Itararé
Nos dias seguintes, as forças do Sul avançaram por Santa Catarina e pelo Paraná, tomando cidades e a linha férrea pelo caminho. Ponta Grossa caiu sem combate prolongado.
A frente parou na divisa de Paraná com São Paulo, na altura de Itararé. Era ali que a batalha decisiva estava montada, com as duas forças em posição e trincheira cavada dos dois lados.
O combate não aconteceu. A resolução veio do Rio de Janeiro antes que as linhas se encontrassem, e Itararé ficou conhecida como a maior batalha que não houve.
No Nordeste, as guarnições foram aderindo estado por estado ao longo de outubro. Em três semanas, o governo federal tinha perdido o controle da maior parte das capitais.
24 de outubro: a junta assume no Rio de Janeiro
Em 24 de outubro de 1930, oficiais das três forças depuseram o presidente Washington Luís no Palácio Guanabara. O mandato dele terminaria em 15 de novembro daquele ano.
O governo passou a uma junta formada pelos generais Augusto Tasso Fragoso e João de Deus Mena Barreto e pelo almirante José Isaías de Noronha. Washington Luís foi levado ao Forte de Copacabana e depois embarcou para o exterior.
A junta governou o país por dez dias. Ela recebeu a pressão das forças que vinham do Sul e das lideranças civis do movimento para entregar o cargo ao chefe da coluna, e a transferência foi negociada por telegrama e por emissário.
Em 31 de outubro, as tropas gaúchas chegaram ao Rio de Janeiro. A cena que virou a fotografia mais reproduzida do episódio aconteceu na Avenida Rio Branco, com os cavalos amarrados no obelisco.
3 de novembro: a posse no Palácio do Catete
Em 3 de novembro de 1930, a junta entregou o governo a Getúlio Vargas no Palácio do Catete. Ele assumiu como chefe do Governo Provisório, sem eleição e sem mandato fixado.
O Governo Provisório passou a legislar por decreto. Nas semanas seguintes, dissolveu o Congresso Nacional e as assembleias estaduais, nomeou interventores para os estados e criou ministérios novos, entre eles o do Trabalho, Indústria e Comércio.
O ciclo aberto em 3 de outubro fecha ali: trinta e um dias entre o sinal em Porto Alegre e a assinatura da posse no Catete, com um único combate de porte na conta e a batalha esperada nunca travada.
Júlio Prestes, eleito em março de 1930 e nunca empossado, deixou o país no fim daquele mesmo ano e passou os anos seguintes fora do Brasil.
A fotografia do obelisco, e o que ela registra
A imagem que ficou do episódio é uma só: cavalos amarrados no obelisco da Avenida Rio Branco, no centro do Rio de Janeiro, com soldados do Sul em volta.
A cena é de 31 de outubro de 1930, quando as tropas gaúchas chegaram à capital federal, três dias antes da posse. Ela não registra combate nenhum, porque combate não houve na cidade.
O gesto de amarrar montaria no marco urbano da capital foi lido na época como sinal de quem tinha vencido, e a imprensa do dia seguinte tratou a chegada como desfile.
A atribuição de autoria da fotografia varia conforme a publicação, e o mesmo enquadramento aparece em mais de uma cópia com legendas diferentes. O que está firme é a data, o lugar e o que está no quadro.
O acervo da Brasiliana Fotográfica reúne imagens do Rio de Janeiro daquele período, e é ali que a cena do obelisco pode ser conferida ao lado de outras da mesma semana, com a instituição que guarda cada original declarada.
Os primeiros meses do Governo Provisório, em decretos
O governo instalado em 3 de novembro legislava e administrava pelo mesmo instrumento. Cada decisão saía como decreto assinado pelo chefe do governo e pelo ministro da pasta.
Em novembro de 1930 foram criados dois ministérios novos: o do Trabalho, Indústria e Comércio, e o da Educação e Saúde Pública. Os dois passaram a montar estrutura própria a partir do zero.
No mesmo mês, um decreto organizou o funcionamento do Governo Provisório: manteve em vigor a Constituição de 1891 no que não contrariasse o novo arranjo, confirmou a dissolução do Congresso e das assembleias, e fixou a nomeação de interventores para os estados.
Em fevereiro de 1932 veio o Código Eleitoral, com três mudanças que a Aliança Liberal tinha pedido em campanha: justiça eleitoral própria, sigilo do voto e direito de voto para a mulher, com restrições que foram sendo retiradas depois.
Em julho do mesmo ano, São Paulo pegou em armas exigindo a convocação da assembleia constituinte prometida. O conflito durou quase três meses e terminou com a derrota do estado, e a assembleia foi eleita em maio de 1933.
Linha do tempo dos trinta e um dias
- 3 de outubro de 1930No fim da tarde, tropa e civis armados tomam o quartel-general em Porto Alegre, e o movimento começa na mesma hora em Belo Horizonte e na cidade da Paraíba.
- Primeira semana de outubroAs forças do Sul avançam por Santa Catarina e pelo Paraná, tomando cidades e linha férrea, enquanto guarnições do Nordeste aderem estado por estado.
- Meados de outubroA frente para na divisa de Paraná com São Paulo, na altura de Itararé, com as duas forças em posição e trincheira cavada dos dois lados.
- 24 de outubro de 1930Oficiais das três forças depõem o presidente Washington Luís no Palácio Guanabara, e o governo passa a uma junta de dois generais e um almirante.
- 31 de outubro de 1930As tropas gaúchas chegam ao Rio de Janeiro e amarram os cavalos no obelisco da Avenida Rio Branco, na cena que virou a fotografia mais reproduzida do episódio.
- 3 de novembro de 1930A junta entrega o governo a Getúlio Vargas no Palácio do Catete, que assume como chefe do Governo Provisório, sem eleição e sem mandato fixado.
A série cabe em pouco mais de um mês, e a batalha que todos esperavam não entra em nenhuma das seis linhas.
As datas de corte do período
O período que começa em 3 de novembro de 1930 costuma ser contado em quatro trechos, marcados por datas de documento. O Governo Provisório vai até 1934, quando uma nova Constituição é promulgada em 16 de julho e a Assembleia elege Vargas presidente.
O trecho constitucional vai de 1934 a 10 de novembro de 1937. O regime iniciado naquela data dura até 29 de outubro de 1945, quando comandantes militares depõem o presidente. O último trecho é o mandato eleito em 3 de outubro de 1950, iniciado em 31 de janeiro de 1951 e encerrado em 24 de agosto de 1954.
A Hemeroteca Digital Brasileira guarda os jornais de outubro e novembro de 1930, dia a dia. O Arquivo Nacional reúne os decretos do Governo Provisório. O DHBB da Fundação Getulio Vargas, que cobre o país a partir de 1930, tem a ficha de cada nome citado aqui, e a Brasiliana Fotográfica reúne as imagens do período.
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Itararé continua no mapa, na divisa de São Paulo com o Paraná, e o nome da cidade ficou colado à batalha que estava montada e nunca aconteceu.
Perguntas frequentes
O que foi a Revolução de 1930?
O movimento armado iniciado no fim da tarde de 3 de outubro de 1930, simultaneamente no Rio Grande do Sul, em Minas Gerais e na Paraíba, que terminou com a deposição do presidente Washington Luís em 24 de outubro e a posse de Getúlio Vargas como chefe do Governo Provisório em 3 de novembro, no Palácio do Catete.
Por que a Revolução de 1930 começou?
Pela combinação de uma sucessão presidencial disputada, com o presidente apoiando um candidato do próprio estado em vez do revezamento praticado até ali, e da crise do café depois da quebra da bolsa de Nova York em outubro de 1929. A morte a tiros de João Pessoa, em 26 de julho de 1930, acelerou a articulação militar que já corria nos quartéis.
O que foi a batalha de Itararé?
A batalha que não aconteceu. As duas forças ficaram em posição na divisa de Paraná com São Paulo, com trincheira cavada dos dois lados, e a resolução veio do Rio de Janeiro antes que as linhas se encontrassem. O nome ficou colado à cidade justamente pelo combate que não houve.
Quem governou entre a deposição e a posse de Vargas?
Uma junta formada pelos generais Augusto Tasso Fragoso e João de Deus Mena Barreto e pelo almirante José Isaías de Noronha, que governou por dez dias, entre 24 de outubro e 3 de novembro de 1930, e entregou o cargo depois de negociação conduzida por telegrama e por emissário.
O que aconteceu com Washington Luís?
Foi deposto por oficiais das três forças no Palácio Guanabara, em 24 de outubro de 1930, a três semanas do fim do próprio mandato. Foi levado ao Forte de Copacabana e depois embarcou para o exterior. Júlio Prestes, eleito em março e nunca empossado, deixou o país no fim daquele ano.
O que o Governo Provisório fez nos primeiros meses?
Legislou por decreto. Dissolveu o Congresso Nacional e as assembleias estaduais, nomeou interventores para os estados, criou os ministérios do Trabalho, Indústria e Comércio e da Educação e Saúde Pública em novembro de 1930, e aprovou em 1932 o Código Eleitoral com justiça eleitoral própria, sigilo do voto e voto feminino.
Quantos anos durou o período aberto em 1930?
Quinze anos na primeira passagem, de 3 de novembro de 1930 a 29 de outubro de 1945, divididos em quatro trechos marcados por datas de documento. Vargas voltou depois pelo voto direto, na eleição de 3 de outubro de 1950, para o mandato iniciado em 31 de janeiro de 1951.
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