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História do Maranhão: o dia de 1612 em que franceses fundaram São Luís e deram à cidade o nome de um rei de dez anos
Por Redação Brasil Documentado · 8 de setembro de 1612 · Leitura de 11 minutos

Neste artigo
- A frota que saiu de Cancale e chegou em julho
- O forte no alto e a cerimônia do dia 8
- A ilha antes de 1612
- O nome de um rei de dez anos
- Os dois livros que os capuchinhos imprimiram em Paris
- Guaxenduba, a trégua e a entrega de novembro de 1615
- O que a retomada portuguesa montou depois de 1615
- O que sobrou no traçado da cidade
- Perguntas frequentes
Em 8 de setembro de 1612, numa elevação que olha a baía de São Marcos, uma expedição francesa fincou uma cruz e mandou rezar missa. Na mesma cerimônia batizou o forte de terra e madeira que começava a subir no alto.
O nome escolhido foi São Luís. A cidade que cresceu em volta daquele forte é a única capital brasileira fundada por franceses.
A ocupação durou três anos. Em novembro de 1615 os franceses entregaram a praça aos portugueses e voltaram para a Europa.
O que sobrou da passagem deles é menos do que o nome sugere, e a planta do centro velho explica o motivo.
A frota que saiu de Cancale e chegou em julho
A expedição partiu de Cancale, na Bretanha, em março de 1612, com autorização da regência de Maria de Médici. Quem mandava eram Daniel de La Touche, senhor de La Ravardière, e François de Rasilly.
La Ravardière já tinha reconhecido aquele trecho de costa em viagem anterior. Ele voltou com plano de colônia, não com plano de escala.
A travessia passou por Fernando de Noronha e alcançou a ilha do Maranhão em julho de 1612. Vinham a bordo quatro frades capuchinhos, entre eles Claude d'Abbeville e Yves d'Évreux.
Na ilha viviam tupinambás, e o acordo com os chefes das aldeias foi a primeira coisa tratada. Os relatos franceses descrevem assembleias com as lideranças antes de qualquer obra levantada.
O forte no alto e a cerimônia do dia 8
O sítio escolhido foi uma elevação sobre a baía, com vista para quem chegasse pelo mar. A posição valia mais que a construção: a primeira obra era de terra socada e madeira.
Em 8 de setembro os franceses cumpriram a cerimônia de posse. Cruz fincada, missa rezada, forte batizado. A data cai no dia da Natividade de Maria no calendário católico, e a escolha do dia não foi acaso de agenda.
O forte virou o centro do arraial. Em volta ficaram os alojamentos, o depósito e a capela dos capuchinhos, enquanto o resto da ilha seguia tupinambá.
Foi ali que existiu a França Equinocial: um posto francês no norte de um território que Portugal considerava seu, montado enquanto as duas coroas estavam formalmente em paz.
A ilha antes de 1612
A chegada francesa não encontrou território vazio nem desconhecido, e a documentação do próprio grupo registra as duas coisas.
A ilha era ocupada por tupinambás organizados em aldeias, com roça, casa coletiva e chefia própria. Os relatos publicados em Paris descrevem o número de aldeias e os nomes das lideranças com quem os franceses trataram.
Navios franceses frequentavam aquele trecho de costa desde o século 16, em comércio de pau-brasil e de outros produtos, sem colônia instalada. A viagem de 1612 foi a tentativa de transformar rota de troca em ocupação permanente.
Do lado português, a área constava no papel desde a divisão da costa em capitanias, na década de 1530. A capitania correspondente ao trecho nunca foi ocupada de fato, e a ausência de gente é o que deixou a porta aberta.
A França Equinocial nasce dessa combinação: um projeto autorizado em Paris, um trecho de costa conhecido por comércio antigo e uma capitania portuguesa que existia em documento e não em povoação.
O nome de um rei de dez anos
Luís XIII tinha dez anos em setembro de 1612. Reinava desde 1610, quando o pai foi morto, e quem governava era a mãe, na regência.
O batismo do forte chegou ao rei pela via do santo. Luís IX, rei da França no século 13 e canonizado depois, é quem carrega o nome no calendário. Chamar a praça de São Luís homenageava o menino no trono sem sair da liturgia.
O nome foi a parte da fundação que sobreviveu à derrota. Os portugueses tomaram o forte, trocaram a bandeira e mantiveram o topônimo.
Os dois livros que os capuchinhos imprimiram em Paris
A fundação de 1612 é um dos episódios mais bem descritos da América portuguesa daquele século, e a razão é editorial: dois frades da expedição publicaram o que viram.
Claude d'Abbeville voltou à França em 1613 e imprimiu no ano seguinte a história da missão na ilha, com descrição das aldeias, da língua tupinambá, das cerimônias, da comida, da caça e das negociações com as lideranças.
Yves d'Évreux ficou mais tempo e escreveu o relato do período seguinte, publicado em Paris na mesma década. A circulação do segundo livro foi limitada, e a obra ficou rara por muito tempo.
Os dois textos são a fonte mais detalhada da ocupação, e são também uma fonte de parte interessada. Eles registram o ponto de vista da missão que estava ali para converter e da expedição que estava ali para ocupar.
A leitura útil separa uma coisa da outra. A descrição do que está diante dos olhos, com número de aldeias, nome de chefe e prática registrada, tem valor de observação; o julgamento sobre o que foi observado é do autor e do tempo dele.
Nenhum dos dois relata a rendição de 1615, porque os capuchinhos já tinham deixado a ilha ou voltado à Europa. O fim da ocupação está na documentação portuguesa, produzida por quem tomou a praça.
Guaxenduba, a trégua e a entrega de novembro de 1615
A reação portuguesa saiu de Pernambuco. Jerônimo de Albuquerque e Diogo de Campos Moreno montaram base na costa e avançaram em direção à ilha.
O choque decisivo foi em 19 de novembro de 1614, em Guaxenduba, na beira da baía de São José. As forças portuguesas e os indígenas aliados venceram a tropa franco-tupinambá.
Depois da batalha veio uma trégua negociada, com emissários enviados às duas cortes. A guerra parou por quase um ano enquanto Lisboa e Paris não respondiam.
A resposta chegou em forma de esquadra. Alexandre de Moura desembarcou com reforços e os franceses capitularam nos primeiros dias de novembro de 1615. O dia exato varia conforme o relato consultado, e a documentação não fecha em uma única data.
Da mesma São Luís partiu, em dezembro de 1615, a expedição de Francisco Caldeira Castelo Branco. Em 12 de janeiro de 1616 ela ergueu o forte que deu origem a Belém.
O que a retomada portuguesa montou depois de 1615
A saída dos franceses não devolveu a ilha ao esquecimento administrativo. Ela virou peça central de um arranjo novo, montado por Lisboa para governar o norte.
Em 1621 foi criado o Estado do Maranhão, unidade separada do Estado do Brasil, com governo próprio e sede em São Luís. A razão era prática e está nos ventos: a navegação entre o norte e a Bahia era difícil, e o contato direto com Lisboa saía mais rápido.
O arranjo colocou a cidade no comando de um território enorme, que alcançava o vale amazônico. A separação administrativa durou, com mudanças de nome e de sede, até o fim do período colonial.
Entre 1641 e 1644, São Luís foi ocupada por forças holandesas, no mesmo movimento que mantinha Pernambuco sob domínio da Companhia das Índias Ocidentais. A retomada foi conduzida com participação de moradores da região.
No século 18, a economia da capitania mudou de eixo com o algodão e o arroz, produzidos para exportação, e com a companhia de comércio criada em 1755 para operar o tráfico e o abastecimento do norte. É desse período o casario que forma hoje o centro histórico.
O que sobrou no traçado da cidade
A parte francesa da fundação é o nome e o sítio. O traçado do centro histórico é português e veio depois da retomada.
A planta foi desenhada em xadrez, com ruas retas cortando em ângulo reto morro abaixo, obra atribuída ao engenheiro-mor Francisco Frias de Mesquita. As ladeiras do centro velho seguem a mesma malha.
No alto, onde ficava o forte, está o Palácio dos Leões, sede do governo estadual. O endereço do poder na ilha não mudou em quatro séculos, só trocou de dono e de material.
O papel do dia não está em arquivo brasileiro. A documentação portuguesa da conquista ficou em Lisboa e o relato francês foi impresso em Paris, onde Claude d'Abbeville publicou em 1614 a história da missão dos capuchinhos na ilha. A fonte mais detalhada da fundação é, portanto, a de uma das partes envolvidas.
A Hemeroteca Digital Brasileira guarda a outra camada da história, que é a história da data: os jornais maranhenses que discutiram a fundação e organizaram as festas do tricentenário.
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Quem sobe hoje a ladeira até o Palácio dos Leões está subindo a mesma elevação que a frota enxergou da baía em 1612. O forte de terra e madeira sumiu, a vista continua.
Perguntas frequentes
Quem fundou São Luís do Maranhão?
Uma expedição francesa, em 8 de setembro de 1612, comandada por Daniel de La Touche, senhor de La Ravardière, e François de Rasilly. A cerimônia de posse foi feita numa elevação sobre a baía de São Marcos, com cruz fincada, missa rezada e o forte de terra e madeira batizado de São Luís.
Por que São Luís tem esse nome?
Pela via do santo. Luís XIII tinha dez anos em setembro de 1612 e reinava desde 1610, sob a regência da mãe. Chamar a praça de São Luís homenageava o menino no trono usando o nome de Luís IX, rei da França no século 13 e canonizado depois, sem sair da liturgia.
São Luís é a única capital brasileira fundada por franceses?
Sim. Outras ocupações francesas existiram no território, como a da Baía de Guanabara no século 16, mas nenhuma delas deu origem a uma capital. O nome dado pelos franceses em 1612 sobreviveu à derrota: os portugueses tomaram o forte, trocaram a bandeira e mantiveram o topônimo.
O que foi a França Equinocial?
O posto francês montado no norte de um território que Portugal considerava seu, enquanto as duas coroas estavam formalmente em paz. Durou três anos, de 1612 a 1615, com o forte de São Luís como centro, alojamentos, depósito e a capela dos capuchinhos em volta.
Como os portugueses retomaram o Maranhão?
Pela campanha que saiu de Pernambuco, comandada por Jerônimo de Albuquerque e Diogo de Campos Moreno. O choque decisivo foi em 19 de novembro de 1614, em Guaxenduba, na beira da baía de São José. Depois de uma trégua negociada de quase um ano, a chegada de reforços com Alexandre de Moura levou à capitulação francesa nos primeiros dias de novembro de 1615.
O que sobrou da presença francesa em São Luís?
O nome e o sítio. O traçado do centro histórico é português e veio depois da retomada, desenhado em xadrez, com ruas retas cortando em ângulo reto morro abaixo, obra atribuída ao engenheiro-mor Francisco Frias de Mesquita.
O que aconteceu com o Maranhão depois da retomada?
Em 1621 foi criado o Estado do Maranhão, unidade separada do Estado do Brasil, com governo próprio e sede em São Luís, porque a navegação até a Bahia era difícil e o contato direto com Lisboa saía mais rápido. A cidade foi ocupada por forças holandesas entre 1641 e 1644, e no século 18 a economia da capitania mudou de eixo com o algodão e o arroz produzidos para exportação.
Onde estão os documentos da fundação de São Luís?
Fora do Brasil. A documentação portuguesa da conquista ficou em Lisboa e o relato francês foi impresso em Paris, onde Claude d'Abbeville publicou em 1614 a história da missão dos capuchinhos na ilha. A fonte mais detalhada da fundação é, portanto, a de uma das partes envolvidas.
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