O episódio · O lugar da cena

As margens do rio Ipiranga: o riacho, a colina e o museu que subiu por cima do lugar

Por Redação Brasil Documentado · O riacho do Ipiranga · Leitura de 11 minutos

Uma pedra de rio lisa e escura sozinha numa mesa de madeira escura e gasta, sob a luz quente de abajur que entra pela esquerda, com sombra funda caindo pra direita, fundo breu de couro e o dourado como única cor viva

O Ipiranga nunca foi rio grande. É um riacho de poucos metros de largura que corre pelo sudeste de São Paulo e deságua no Tamanduateí, que por sua vez cai no Tietê.

O nome descreve a água. Em tupi, a composição junta o termo para água e o termo para vermelho, e a cor vem do barro do leito, que tinge a corrente depois da chuva.

Em 1822 o trecho ficava fora da vila de São Paulo, a alguns quilômetros do casario, em terreno de pasto e capoeira cortado por um caminho de tropa.

A peça a seguir trata do lugar. O que aconteceu ali num dia de setembro é assunto de outra página, e aqui entram o riacho, a estrada, a colina e o prédio que ocupou o alto depois.

O caminho que passava por ali

O riacho tinha importância por causa da estrada. Quem vinha de Santos para São Paulo subia a serra e entrava na vila pelo sul, cruzando o Ipiranga por uma ponte modesta.

A serra era vencida pela Calçada do Lorena, trecho calçado aberto no fim do século 18 para tornar a descida e a subida praticáveis para carga. Depois dela vinha a planície, e depois o Ipiranga.

O caminho não era paisagem: era canal de informação. Todo papel que vinha de Lisboa desembarcava em Santos e subia por ele, o que fazia da estrada o lugar onde as notícias chegavam antes da vila.

O trecho final, entre o riacho e o centro, era ponto de parada conhecido. Viajante que subia com tropa cansada parava ali antes de entrar, e encontro entre viajante e correio naquele pedaço era rotina.

A subida da serra, do calçamento à rodovia

O caminho que passava pelo riacho mudou quatro vezes, e cada mudança tirou movimento do trecho antigo.

A Calçada do Lorena, aberta no fim do século 18, foi o primeiro trajeto calçado a tornar a serra praticável para carga. Antes dela, a subida era feita por trilha de tropa, com perda de animal e de mercadoria no percurso.

Em 1867 entrou em operação a ferrovia entre Santos e Jundiaí, que passou a levar o café da região para o porto. O transporte pesado saiu da estrada e foi para o trilho, e a rota antiga perdeu função econômica.

Em 1947 foi inaugurada a primeira rodovia moderna da ligação, e em 1976 a segunda pista, em traçado próprio com túnel e viaduto. As duas correm ao lado do caminho velho e não passam mais pelo mesmo ponto.

O trecho histórico sobrevive em pedaços preservados de calçamento na serra, tratados hoje como patrimônio e percorridos a pé. A viagem que a comitiva fez em dias se faz agora em pouco mais de uma hora, por outra pista.

A colina em 1822

A elevação ao lado do riacho era pasto aberto, com poucas construções em volta. Não havia praça, marco nem qualquer sinalização.

O lugar aparece nos relatos como referência de estrada, do jeito que se descreve um ponto conhecido de percurso: depois da ponte, na subida, antes de avistar a vila.

Nenhum documento do dia fixa o metro quadrado da parada. O que a documentação sustenta é o trecho do caminho, não o ponto exato, e os relatos que descrevem a cena foram escritos anos ou décadas depois.

No parque atual existe uma construção de taipa apresentada como moradia rural da época, conhecida como Casa do Grito. A documentação não sustenta que ela seja a casa que aparece nos relatos, e a leitura corrente é a de exemplar de habitação rural do século 19.

O nome que entrou no hino, e quando

A primeira palavra cantada no hino nacional é o nome do riacho, e a letra chegou ali quase um século depois da cena.

A música é de Francisco Manuel da Silva e vem da década de 1830. Ela circulou por décadas com letras diferentes, escritas em ocasiões distintas, sem versão firmada por lei.

A letra em uso hoje é de Joaquim Osório Duque-Estrada e foi escrita no começo do século 20. Ela venceu o processo de escolha conduzido pelo governo e foi adotada oficialmente em 1922, no centenário da separação.

O verso de abertura descreve o lugar do jeito que ele era: margens plácidas de um curso de água pequeno, sem menção a rio caudaloso. A leitura que imagina um grande rio no verso é posterior e não está no texto.

O adjetivo do nome também descreve. A composição em tupi junta o termo para água e o termo para vermelho, e a cor vem do barro do leito, que tinge a corrente depois da chuva.

A bacia do riacho, e para onde a água vai

O Ipiranga corre pelo sudeste de São Paulo e deságua no Tamanduateí, que por sua vez cai no Tietê. Ele é, portanto, afluente de afluente, no terceiro degrau da drenagem da cidade.

A extensão é de poucos quilômetros, e a largura de poucos metros no trecho que aparece nos relatos. Nenhum documento do período o descreve como obstáculo de travessia difícil, e a ponte que o cruzava era modesta.

A urbanização mudou o curso por partes. Trechos foram retificados, outros canalizados sob rua, e o traçado atual do bairro passa por cima da maior parte do leito antigo.

Um trecho aberto sobrevive dentro do parque, alimentado pela drenagem local e represado em espelho de água. Ele indica o lugar por onde a água corria, e não a paisagem que existia ali em 1822.

O nome se espalhou pela cidade. Bairro, avenida, estação de metrô, hospital e escola levam o topônimo, e a maior parte das pessoas que usa a palavra todo dia nunca viu o curso de água que a originou.

O prédio que subiu no alto

Em 1885 começou a construção de um edifício monumental no topo da colina, projetado pelo arquiteto italiano Tommaso Gaudenzio Bezzi, em estilo de palácio com escadaria, torre central e jardim geométrico à frente.

O prédio ficou pronto em 1890 e passou anos sem uso definido. A ideia original era comemorativa: erguer um monumento no lugar, não abrigar uma coleção.

O museu chegou depois, e chegou por outro caminho. Em 7 de setembro de 1895 o edifício abriu ao público como Museu Paulista, com acervo formado sobretudo por história natural, sob direção do zoólogo Hermann von Ihering.

A virada para a história veio na gestão de Afonso d'Escragnolle Taunay, diretor a partir de 1917. Ele reorganizou o museu em torno da memória da independência e conduziu o programa decorativo do salão nobre, onde está a tela de grande formato pintada por Pedro Américo em 1888.

O museu que nasceu por cima da cena, portanto, começou como museu de bicho e pedra e foi convertido em museu de história por decisão de gestão, três décadas depois de aberto.

Os jardins, o monumento e a cripta

Os jardins geométricos entre a rua e a escadaria foram desenhados no começo do século 20, no gosto francês, com canteiros simétricos e espelhos d'água alinhados ao eixo do prédio.

Na parte baixa do parque, o Monumento à Independência foi inaugurado em 7 de setembro de 1922, no centenário. A obra em granito e bronze é do escultor italiano Ettore Ximenes.

Em 1972, no sesquicentenário, os restos de dom Pedro I foram trazidos de Portugal e depositados na cripta construída sob o monumento. A partir daquele ano o marco do lugar passou a ser também um túmulo.

O conjunto virou endereço de escola em excursão e de solenidade oficial, e a colina passou a receber por calendário o que antes recebia por acaso de estrada.

Linha do tempo da colina, de 1822 a 2022

  1. 1822O trecho é pasto aberto na saída da vila de São Paulo, sem praça, marco ou sinalização, cortado pelo caminho que subia de Santos e cruzava o riacho por uma ponte modesta.
  2. 1885Começa a construção do edifício monumental no topo da colina, projetado pelo arquiteto italiano Tommaso Gaudenzio Bezzi, com escadaria, torre central e jardim geométrico à frente.
  3. 7 de setembro de 1895O prédio, pronto desde 1890 e sem uso definido, abre ao público como Museu Paulista, com acervo formado sobretudo por história natural.
  4. 1917Afonso d'Escragnolle Taunay assume a direção e reorganiza o museu em torno da memória da independência, conduzindo o programa decorativo do salão nobre.
  5. 7 de setembro de 1922O Monumento à Independência, obra do escultor italiano Ettore Ximenes, é inaugurado na parte baixa do parque, no centenário da separação.
  6. 1963O museu é incorporado à Universidade de São Paulo.
  7. 1972No sesquicentenário, os restos de dom Pedro I são trazidos de Portugal e depositados na cripta construída sob o monumento, e o marco do lugar passa a ser também um túmulo.
  8. 2013O prédio fecha para obras de restauro e ampliação.
  9. 7 de setembro de 2022O edifício reabre ao público no bicentenário, com o nome de Museu do Ipiranga.

Duzentos anos separam o pasto do museu, e o lugar mudou de função quatro vezes no caminho.

O endereço de hoje

O Museu Paulista foi incorporado à Universidade de São Paulo em 1963. Fechou para obras em 2013 e reabriu em 7 de setembro de 2022, no bicentenário, com o nome de Museu do Ipiranga.

O riacho continua correndo, agora canalizado sob o traçado urbano do bairro que herdou o nome dele. O leito aberto e barrento que aparece nos relatos de 1822 não existe mais na paisagem.

O endereço não tem número: é o Parque da Independência, no bairro do Ipiranga, cercado de rua movimentada, prédio residencial e linha de ônibus.

A imagem de acervo do prédio em construção, do parque e das solenidades do centenário está na Brasiliana Fotográfica. A cobertura de jornal de cada uma das aberturas, em 1895, 1922 e 1972, está na Hemeroteca Digital Brasileira.

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Quem sobe a escadaria hoje está de costas para o riacho, que passa embaixo do asfalto. O lugar que virou monumento tinha, em 1822, a única qualidade que importava: ficava no caminho de quem vinha do porto.

Perguntas frequentes

Onde fica o rio Ipiranga?

No sudeste da cidade de São Paulo, no bairro que herdou o nome dele. É um riacho de poucos metros de largura que deságua no Tamanduateí, que por sua vez cai no Tietê. Em 1822 o trecho ficava fora da vila, a alguns quilômetros do casario, em terreno de pasto e capoeira cortado por um caminho de tropa.

Por que o rio se chama Ipiranga?

Porque o nome descreve a água. Em tupi, a composição junta o termo para água e o termo para vermelho, e a cor vem do barro do leito, que tinge a corrente depois da chuva.

O rio Ipiranga ainda existe?

Existe, canalizado sob o traçado urbano do bairro na maior parte do percurso. Um trecho aberto sobrevive dentro do Parque da Independência, represado em espelho de água, e ele indica o lugar por onde a água corria, não a paisagem que existia ali em 1822.

Por que a comitiva estava naquele lugar?

Por causa da estrada. Quem vinha de Santos para São Paulo subia a serra pela Calçada do Lorena e entrava na vila pelo sul, cruzando o Ipiranga por uma ponte modesta. O trecho final, entre o riacho e o centro, era ponto de parada conhecido de quem subia com tropa cansada.

O que existe hoje no Parque da Independência?

O edifício monumento no alto, aberto em 7 de setembro de 1895 e hoje conhecido como Museu do Ipiranga; os jardins geométricos desenhados no começo do século 20; o Monumento à Independência, inaugurado no centenário de 1922, obra do escultor Ettore Ximenes; a cripta construída sob ele, onde os restos de dom Pedro I foram depositados em 1972; e a construção de taipa conhecida como Casa do Grito.

A Casa do Grito é a casa de 1822?

A documentação não sustenta a identificação. A leitura corrente é a de exemplar de habitação rural do século 19, e nenhum documento do dia fixa o metro quadrado da parada da comitiva. O que a documentação sustenta é o trecho do caminho, não o ponto exato.

Quando o Museu do Ipiranga reabriu?

Em 7 de setembro de 2022, no bicentenário, depois de fechar para obras em 2013. O prédio foi incorporado à Universidade de São Paulo em 1963, e nasceu como museu de história natural, convertido em museu de história na gestão iniciada em 1917 por Afonso d'Escragnolle Taunay.

O hino nacional fala do rio Ipiranga?

O verso de abertura descreve as margens plácidas do riacho. A música é de Francisco Manuel da Silva, da década de 1830, e a letra de Joaquim Osório Duque-Estrada foi adotada oficialmente em 1922, no centenário da separação, quase um século depois da cena.

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